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Febre do Nilo Ocidental

29/08/2018

Equipe da Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais realiza primeiro diagnóstico da doença em equinos no Brasil e Ministério da Saúde decreta estado de alerta


No dia 30 de maio de 2018, uma equipe da Escola de Veterinária diagnosticou, pela primeira vez, a doença da Febre do Nilo Ocidental (FNO) em equinos no Brasil. O diagnóstico foi possível por meio da análise de amostras de sistemas nervoso central de quatro cavalos que morreram apresentando sinais neurológicos, no norte do Espírito Santo. A identificação da doença fez com que o Ministério da Saúde decretasse estado de alerta, a toda rede de serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) do estado, para uma possível infecção em humanos. 
 
Equipe envolvida no diagnóstico
 
O primeiro diagnóstico da doença em equinos foi um trabalho em conjunto de alunos e professores do setor de doenças virais do DMVP e do setor de Patologia e Clínica de Equinos do DCCV, da Escola de Veterinária. O trabalho envolveu o projeto de doutorado da aluna Aila Solimar Gonçalves, contemplado pelo edital do CNPq, sob coordenação da Profa Erica Azevedo Costa, que pesquisa a detecção de zoonoses virais que acometem equinos no Brasil. “O projeto trabalha com amostras de cavalos que tem suspeitas de alterações neurológicas. Eu recebo as amostras, inclusive essas que vieram do Espírito Santo, e faço uma série de triagens e testes para todos os vírus do gênero Alphavirus e Flavivirus”, esclareceu a doutoranda. 
 
O diagnóstico da doença foi feito no Laboratório de Pesquisas de Virologia Animal (LPVA) do DMVP da Escola, sob coordenação das professoras Érica Costa, Maria Isabel Guedes e Zélia Lobato. O prof. Nelson Rodrigo Martins, do DMVP, coordenador do Laboratório de Doença das Aves da Escola de Veterinária, também participou do diagnóstico como orientador do projeto de doutorado de Aila Gonçalves. Além dos professores do DMVP já citados, a detecção da doença também contou com a participação dos professores e residentes do Setor de Clínica de equinos da Escola, coordenado pela prof. Renata Albuquerque, e do Setor de Patologia, coordenado pelo prof. Felipe Pierezan. Segundo a virologista Érica Costa, a Escola de Veterinária da UFMG já vem trabalhando com doenças neurológicas de equinos desde 2004, com a descoberta do herpesvírus equino 1 (EHV-1) neurológico no estado de Minas Gerais, sob coordenação do Prof. Mauricio Resende, e com o primeiro relato do vírus da encefalite de Saint Louis (SLEV) causando problemas neurológicos em equinos no Brasil, sob coordenação do Prof. Renato de Lima Santos.
 
No processo de vigilância epidemiológica de zoonoses virais em equinos no estado de Minas Gerais, a Escola faz parceria com o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA). O IMA, órgão de vigilância estadual, participa do projeto através do diagnóstico do vírus da raiva e envio das amostras de sistema nervoso central, negativos no diagnóstico, para a equipe da Escola, que faz a pesquisa de outras zoonoses virais.
 
Segundo Aila Gonçalves, fazer parte do primeiro grupo de pesquisa do Brasil a identificar a Febre do Nilo Ocidental nos equinos foi uma experiência muito realizadora. “Foi uma surpresa boa porque a gente viu que os resultados foram satisfatórios. O que a gente mais tem nesse campo no Brasil, são casos neurológicos de equinos sem diagnóstico”. 
 
Febre do Nilo Ocidental
 
A Febre do Nilo Ocidental (FNO) é uma zoonose causada por um vírus do gênero Flavivirus, o mesmo causador da dengue e da febre amarela. “Esse vírus está relacionado tanto com doenças neurológicas em cavalos como também em seres humanos”, descreveu a doutoranda Aila Gonçalves. O vírus do Nilo Ocidental (VNO), também conhecido como West Nile, é transmitido por meio da picada de mosquitos infectados, principalmente do gênero Culex, popularmente conhecidos como pernilongos. Os hospedeiros naturais são algumas espécies de aves silvestres que atuam como amplificadores viriais por conta de alta e prolongada viremia, servindo assim como fonte de infecção para os mosquitos. Conforme disse a doutoranda, o primeiro sinal de desenvolvimento da doença são períodos em que se observa uma alta taxa de mortalidade das aves.  
 
O ciclo da doença tem início a partir do momento que o pernilongo contrai o vírus ao picar aves já infectadas e a transmite para cavalos, humanos e outros mamíferos. O homem e os equídeos são considerados hospedeiros acidentais e terminais, uma vez que a viremia se dá por curto período de tempo e em níveis insuficientes para infectar mosquitos. “Isso significa que, mesmo a pessoa doente, se o mosquito picar esse indivíduo e depois uma outra pessoa, não haverá transmissão dessa infecção”, esclareceu a prof.ª do DMVP, Érica Costa. Deste modo, a transmissão sempre ocorre dentro de um ciclo, visto na representação abaixo: 
 
 
Segundo a prof.ª Érica Costa, a doença ainda é uma incógnita pelo fato de ser recente e com poucas informações a respeito de seu impacto. “O que a gente sabe é que 80% dos humanos infectados não vão desenvolver sinais clínicos da doença. Outros 20% das pessoas infectadas vão desenvolver um sinal muito parecido com os sintomas da dengue e da Zika. E, por fim, 1% dos indivíduos infectadas vão desenvolver algum tipo de neuropatia, doença neurológica aguda grave”. 
 
Histórico
 
A Febre do Nilo Ocidental, batizada em homenagem ao distrito de Uganda onde o vírus foi isolado pela primeira vez, teve seus primeiros registros na África nos anos 90. Em 1999, a doença provocou um grave surto de problemas neurológicos nos EUA, onde houve uma alta taxa de mortalidade de aves. No séc. XXI, a doença já gerou surtos em países como Colômbia, Venezuela e Argentina.
 
Segundo a virologista Érica Costa, todos já sabiam que, uma hora ou outra, o vírus chegaria no Brasil. Confirmando essas previsões, a evidência sorológica de circulação viral no país foi feita em amostras de soro de equinos coletadas desde 2008, na região do Pantanal. Essa sorologia é uma evidência clara de que os animais chegaram a contrair a infecção mas o vírus não foi detectado. Em 2014, foi confirmado o primeiro caso humano de FNO, no Brasil. O paciente notificado foi um agricultor da região de Aroeiras do Itaim, no interior do estado do Piauí, que apresentou um quadro agudo de encefalite e paralisia flácida.
 
Primeiro diagnóstico
 
No último mês de junho, a doença foi novamente destaque de vários noticiários devido ao primeiro caso diagnosticado da doença em equinos no Brasil. Segundo Érica Costa, muitos acreditam que o vírus já havia acometido equinos no país mas ainda não havia sido feito um diagnóstico. “ No Brasil, em média 45% dos casos de cavalos infectados por doenças não tem um diagnóstico comprovado”, afirmou a virologista.
 
O primeiro reconhecimento da doença ocorreu por meio de um médico veterinário da Secretaria Estadual de Saúde do Espírito Santo, que notificou a equipe da Escola de Veterinária que estava ocorrendo um surto de problemas neurológicos em cavalos da região capixaba. Os animais eram dos municípios de Baixo Guandu e Nova Venécia, no norte do estado do Espírito Santo. “Ele sabia que nós, aqui da Escola de Veterinária, trabalhávamos com problemas neurológicos de equinos. O surto ocorreu em abril de 2018 mas eles só enviaram as amostras para a gente no dia 26 de maio. Deste modo, em um período de 4 dias, nossa equipe conseguiu fazer o diagnóstico e detectar o vírus em 4 desses cavalos”, afirmou a professora, Érica Costa.
 
O trabalho de detecção da Febre do Nilo Ocidental (FNO) foi feito através da técnica de RT-qPCR (Transcriptase reversa seguida pela reação em cadeia pela Polimerase) utilizada na área de diagnóstico molecular para detecção gênica de agentes infecciosos. Após a detecção viral, o produto amplificado pela RT-PCR foi sequenciado, confirmando o diagnóstico. A partir do sequenciamento e das análises filogenéticas foi identificado o vírus da Linhagem 1, a mesma que gerou surtos nos Estados Unidos, Colômbia, Argentina, e Venezuela.
 
O primeiro diagnóstico da doença em cavalos no Brasil se mostra de grande importância pelo fato dos equinos serem considerados animais sentinelas de algumas zoonoses importantes. Conforme disse a pós-graduanda, a detecção da doença em cavalos é algo inédito pelo fato da quantidade de vírus, causador da Febre do Nilo, encontrado nos equinos geralmente ser muito baixa. “Detectar a doença em 4 animais é muito expressivo. Eu repeti os testes de reconhecimento por cinco vezes e todas elas deram positivo. Isso significa que realmente havia uma quantidade significativa de vírus nesses animais, qualificando assim um surto da doença”. Esse surto pode representar um fator de risco para a saúde humana pela proximidade dos cavalos com o homem. “Se o cavalo pegou o vírus, isso quer dizer que o vetor está presente para transmitir a doença, e o homem, que está no mesmo ambiente, também pode ser picado e contrair esse vírus”, apontou a aluna de pós-graduação.

Com informações da Assessoria de imprensa da Escola de Veterinária

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